Gulbenkian: um regresso às origens para o futuro da cultura
Museu Gulbenkian reabre “renovado”, para ficar mais igual ao que era há quase 60 anos

RamonSaver782

Pode uma renovação levar um espaço a ser mais igual ao que era antes, em vez de o transformar por completo? É precisamente isso que o Museu Calouste Gulbenkian nos mostra em Lisboa. Após um ano e meio de obras, o emblemático museu reabriu as portas este sábado, 18 de julho, marcando não só um regresso muito aguardado, mas também uma celebração dos 70 anos da Fundação Calouste Gulbenkian. Este projeto de renovação, que teve início em março de 2025, procurou resgatar o espírito e a visão original de 1969, ano da sua inauguração. Mais do que uma simples modernização, a intervenção foi um ato de humildade e reconhecimento da genialidade arquitetónica e museográfica inicial.
Para quem visita Lisboa ou é residente, a reabertura do Gulbenkian é um convite irrecusável. É a oportunidade de revisitar uma das mais importantes coleções privadas do mundo, agora apresentada num cenário que potencia a sua beleza e contextualização.
Um mergulho na visão original
A decisão de "voltar às origens" não foi aleatória. O edifício do Museu Gulbenkian, projetado pelos arquitetos Ruy Jervis d'Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa, é uma joia do modernismo português, reconhecido como Monumento Nacional desde 2010. Ao longo das décadas, intervenções pontuais foram alterando algumas das conceções iniciais, e esta renovação propôs-se a corrigir esse rumo, devolvendo ao museu a coerência entre arquitetura, arte, museografia e natureza que foi idealizada.
As mudanças são notórias e foram pensadas para melhorar a experiência do visitante, ao mesmo tempo que asseguram a preservação das obras. Os sistemas de climatização, iluminação e segurança foram totalmente modernizados, adequando o museu aos padrões técnicos atuais. Mas o mais fascinante é como estas melhorias técnicas se aliam a um profundo respeito pela estética original. Por exemplo, os revestimentos em seda nas galerias europeias e a alcatifa originalmente prevista para esses espaços, removida nos anos 2000, foram repostos. Esta é uma daquelas decisões que não só recupera a intenção dos criadores, como eleva a qualidade da exposição das peças, tornando a visita mais imersiva e autêntica. Não há paredes pintadas, mas sim uma simplicidade refrescante que destaca a arte.
Mais luz, mais diálogo com o jardim
Um dos pilares do projeto original era a integração harmoniosa entre o edifício e o deslumbrante Jardim Gulbenkian, desenhado pelos paisagistas Gonçalo Ribeiro Telles e António Viana Barreto. Com a renovação, as barreiras visuais foram eliminadas, permitindo que a luz natural inunde as galerias e restabelecendo um diálogo constante entre o interior e o exterior. É uma sensação diferente, mais arejada, que convida à contemplação e à perceção da arte num contexto mais orgânico. A luz, essencial para a apreciação das obras, é agora protagonista, complementada por um sistema de iluminação renovado e vidros antirreflexo que facilitam a visibilidade de cada detalhe.
A nova disposição também recupera elementos como:
- A criação de uma nova sala dedicada à numismática antiga, um espaço que antes era um gabinete de trabalho e agora exibe um maior número de moedas e medalhas gregas e romanas, incluindo a icónica moeda da quadriga que inspirou o logótipo da Fundação.
- O restauro minucioso de várias peças, como o biombo de Coromandel e joias Lalique, que ganham agora um novo fulgor.
- A reorganização das galerias para fomentar um diálogo mais fluido entre as obras, como as joias Lalique que agora dialogam com a pintura e as esculturas que se aproximam das telas.
A Coleção Gulbenkian: um tesouro renovado
A coleção de Calouste Sarkis Gulbenkian é, por si só, um universo. Abrange cerca de seis mil peças, das quais mil e trinta estão em exposição permanente, e percorre cinco mil anos de história. Desde a arte do Antigo Egito e Greco-Romana, passando pela Mesopotâmia, o Oriente Islâmico, a Arménia e o Extremo Oriente, até à arte europeia dos séculos XI ao XX, com destaque para a pintura, escultura, arte do livro e artes decorativas francesas do século XVIII. Artistas como Rembrandt, Rubens, Monet, Renoir, Manet, Degas e Turner, entre outros, fazem parte deste acervo extraordinário.
A renovação permite que as peças sejam vistas em melhores condições, com nova iluminação e uma reorganização que procura reforçar a leitura da coleção e o percurso do próprio colecionador. É um convite para descobrir ou redescobrir tesouros como a coleção Lalique, ou as pinturas impressionistas, agora em ambientes que respeitam a sua história e a intenção de quem as reuniu.
Oportunidades para si, entusiasta da cultura
Esta reabertura não é apenas um marco cultural para Lisboa, mas também uma inspiração para todos nós que valorizamos a história, a arte e a beleza no nosso quotidiano. Pensando na riqueza que o Museu Gulbenkian oferece, e na intemporalidade de muitas das suas peças, é natural que surja o desejo de ter um pouco dessa elegância em casa. Afinal, a beleza não precisa de estar fechada em vitrinas.
Se a ideia de integrar arte e peças com história na sua vida o cativa, há sempre formas de procurar objetos que evocam estilos e épocas semelhantes. No nosso Mercadillo, por exemplo, encontra uma variedade de artigos em segunda mão que podem trazer um toque de história e singularidade à sua casa ou ao seu estilo pessoal. Desde mobiliário com traços clássicos até peças decorativas que lembram a sofisticação de outras eras, o universo do usado oferece oportunidades únicas de encontrar "tesouros" a preços acessíveis. Quem sabe não encontra um objeto que lhe remeta para o esplendor do Art Déco, para a simplicidade elegante do modernismo, ou até um livro antigo que o transporte para o universo dos bibliófilos como Calouste Gulbenkian.
A reabertura do Museu Gulbenkian é, assim, mais do que um evento, é um lembrete de que a beleza e a cultura são cíclicas, e que por vezes, para inovar, basta olhar para trás com novos olhos. É a prova de que o cuidado com o património, seja ele um museu de renome ou um objeto em segunda mão, é uma forma de garantir que a história e a arte continuam a enriquecer as nossas vidas. E, para celebrar, o museu oferece entrada gratuita até 26 de julho, proporcionando uma excelente oportunidade para (re)descobrir este espaço renovado e a sua coleção inestimável.

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